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GREEN DAY DETALHA COMO TUDO ACONTECEU E O QUE ESTÁ POR VIR EM NOVO CD

Updated: Oct 31, 2018

A nossa trupe preferida composta por Billie Joe, Mike Dirnt e Tré Cool concedeu nova entrevista para Rolling Stone, onde falaram entre outros assuntos, sobre iHeartRadio, filhos, a pausa, câncer, Gilman Street e, é claro, Revolution Radio, álbum que chega já no próximo dia 7 de Outubro.


Essa é mais uma tradução exclusiva feita pela Green Day Brasil, leia:


Green Day, mais barulhento, mais rápido, mais raivoso

Depois de uma pausa não planejada de quatro anos. O punk trio do Hall da Fama teve de descobrir como mandar ver mais uma vez.


Não muito tempo atrás, antes dele incentivar sua banda a gravar três discos de uma só vez e aterrissar na reabilitação, antes da indução ao Rock and Roll Hall of Fame te-lo deixado com muito pouco à prova, Billie Joe Armstrong tinha regras rigorosas para o Green Day. O mais importante, cada álbum e cada turnê deveriam levar diretamente ao início da próxima. Bandas que fazem pausas nunca são as mesmas quando retornam, Armstrong diria, comparando o Green Day a um carro esporte: “você precisa mantê-lo funcionando, ou ele vai ficar parado e enferrujar”. Eles ensaiariam seis dias por semana, como uma banda de garagem se preparando para seu primeiro show. “Era ridículo”, diz o baixista Mike Dirnt, “e maravilhoso. Nós baixamos a cabeça por 20 anos e jamais olhamos para a frente”.


Tudo tinha de continuar ficando maior e mais ambicioso. Com American Idiot, de 2004, eles gravaram um dos mais importantes álbuns de rock em um século faminto por guitarras e, o certa vez trio de maconheiros – Armstrong, seu amigo de infância Dirnt e o baterista Tré Cool – começou a tocar em estádios com tamanho comparável aos que o Queen costumava tocar e desenvolveu um hábito por usar delineadores nos olhos. Eles trabalharam muito e uma audaciosa sequência, 21st CenturyBreakdown, de 2009, embrulhando-a com músicas sólidas mas com auto-seriedade e algumas bombas no meio – exemplo: ‘American Eulogy (Mass Hysteria/ ModernWorld)’.“Tudo se tornou tão apocalíptico”, diz Armstrong.“Perdemos um pouco do nosso humor bobo, parte do Green Day que eu sempre gostei”.


Por volta de 2012, Armstrong, que ia e voltava em seu abuso pesado de álcool, perdeu o controle e muito da sua perspectiva. Mesmo enquanto compulsivamente escrevia e gravava músicas para os infelizes e quase simultâneos álbuns, ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré! (“Essa coisa implacável, forçou demais”), ele estava combinando bebida e remédios “em um ponto onde eu estava surpreso que iria acordar na manhã seguinte”, diz ele. E mesmo que ele tivesse esposa e dois filhos em casa, sua cabeça estava “embaralhada” o suficiente para que a perspectiva de morte não o incomodasse: “eu estava sendo muito egoísta”.


Hoje, Armstrong está em seu quarto ano sóbrio e está tentando abandonar suas piores tendências de carreira também. O Green Day acabou de finalizar Revolution Radio, seu primeiro álbum em quatro anos, com lançamento em 7 de outubro. Com a banda renovada após a maior pausa nestes seus 28 anos de estrada, Armstrong não pensa mais nela como sendo um delicado carro que pode quebrar após alguns dias na garagem. “Definitivamente não é verdade”, ele diz, duas vezes, quase chorando de tanto rir, sentado numa cadeira cinza de pelúcia na sala de recreação de seu recém construído estúdio em Oakland. “Eu aprendi isso da maneira difícil. Você não pode deixar o entusiasmo te guiar. Você tem de parar de tentar se superar o tempo todo. Tivemos de acabar com esse hábito, porque de uma hora pra outra nós não estávamos mais sendo nós mesmos. Eu estava me irritando por estar no Green Day. Nós precisávamos parar”.


Pela primeira vez em mais de 15 anos, o Green Day lança um álbum que é apenas um álbum: 12 músicas sem truques. “Era apenas Eu, Billie e Tré disparando uns nos outros”, diz Dirnt, “da mesma forma como se estivéssemos ensaiando para o Kerplunk – o segundo álbum da banda, lançado em 1992 – “sem ficar pensando naquilo”. A banda vê isso como um passo de volta ao básico, sua versão de AllThatYouCan’tLeaveBehind, reboot do U2 no ano 2000. “Tinha uma coisa que era assim, ‘o que deveríamos ser hoje?’”, diz Armstrong. E a resposta: “Vamos ser o Green Day. O Green Day é foda!”.


Quando ele subiu no palco completamente bêbado durante o iHeart Radio Festival, em 21 de setembro de 2012, na semana que ¡Uno! estava sendo lançado, Armstrong fez com que tudo ruísse. Confrontado por uma placa luminosa indicando que o tempo da banda no palco estava se encerrando, ele pirou, ameaçando o público com um discurso retórico que teria sido hilário se não tivesse ido longe demais. “Foda-se essa merda!”, ele mandou. “Eu estou por aí desde 1988, caralho, e você vai me dar um minuto, porra? Eu não sou a porra do Justin Bieber, seus filhos da puta. Vocês só podem estar fazendo a porra de uma piada”. Ele prosseguiu destruindo sua guitarra com Mike Dirnt destruindo seu baixo em solidariedade.


Deixando o estado calamitoso de Armstrong de lado, seus companheiros de banda concordam que, em primeiro lugar, eles não deveriam ter estado naquela festa dominada pelo pop. “Uma vez punk, sempre punk, é assim que tudo termina”, diz Armstrong. Ele está vestido como o pai roqueiro que é: jeans pretos, converse preto, uma gravata de bolinhas meio solta e um cardigã marrom que quase não combina. Sua barba grisalha por fazer, seu cabelo preto cheio de gel e seu dente frontal lascado o deixam com um jeito de moleque. Ele sempre parece meio agitado como um aluno que mata aula fugindo do diretor do colégio.


“As vezes você se sente como um garoto de mente suja que está concorrendo para rei da festa de boas vindas”, ele adiciona. “Mas temos que culpar nós mesmos por nos colocarmos naquela situação. Nós podíamos ter dito não”. Ele faz uma pausa. “Honestamente, cara, eu não consigo lembrar de nenhuma palavra que saiu da minha boca”.


Dirnt concorda com tudo o que Billie disse em cima do palco. “Mas o que eu não poderia concordar”, diz o baixista, “era ver meu amigo se degradando. Aquele maldito caminho tinha ido longe demais. E ele ainda nem havia percebido. Foi tipo, ‘acabou, reconheça isso. Não consigo pensar em tocar com você nesse momento. Você precisa fazer o certo’”. Armstrong entrou na reabilitação e enquanto esteve fora, Dirnt lhe escreveu cartas de encorajamento temperadas com grande realismo. “Se passarmos por isso e nos reunirmos novamente”, ele lhe disse, “nós seremos mais fortes do que nunca ou não faremos mais isso”.


Ao longo dos anos, Armstrong passou por algumas tentativas de ficar sóbrio por conta própria, mas mesmo após a amplamente divulgada prisão por dirigir embriagado, em 2003, poucos ao redor dele imaginaram que ele tinha um problema real. Durante um literal show regado a bebida em Nova Iorque com o projeto paralelo do Green Day, Foxboro Hot Tubs, em 2010, o músico Jesse Malin, amigo de longa data, observou enquanto Armstrong apenas “tirou pra fora e mijou por todo o palco. Eu sempre pensei que era apenas o espírito da coisa. Eu já fiz coisas assim sóbrio! Mas provavelmente já era um sinal de onde as coisas estavam indo”. Houve muitas outras noites de porre que pareceram inofensivas, onde Malin e Armstrong ficaram de pé a noite toda falando nerdices sobre música: “Ficávamos apenas tagarelando sobre músicas, tipo, será que o Replacements roubou essa parte de ‘Little Mascara’ da música ‘Death or Glory’ do The Clash?”.


Michael Mayer, diretor da versão da Broadway de American Idiot, o chama de “maior alcoólatra funcional que eu já vi na minha vida. Parece que tudo passava por fases e não era uma coisa constante. Não era como se ele estivesse bêbado ou chapado o tempo todo. Mas ele ocasionalmente exagerava e isso se tornou mais difícil para ele se recuperar”.


Depois de um tempo, Armstrong não sentiu-se mais como funcional. “Era só por fora”, ele diz. “Não era a realidade do que estava acontecendo. A outra parte da minha vida estava se despedaçando aos poucos. Minha base estava ruindo”. Se ele não tivesse parado, ele diz, “honestamente, eu não eu se eu ainda estaria por aí”. E ele está muito feliz que continua por aqui. “Eu quero estar aqui quando meus filhos saírem de casa”, ele diz – seu filho mais novo, Jakob, em breve irá terminar o colégio. “Quero ver meus filhos passarem por suas experiências. Não quero que eles jamais tenham de lidar com esse tipo de escuridão na vida deles”.


Armstrong diz que a sobriedade veio muito naturalmente. Ele não se importa se seus companheiros de banda bebem na frente dele. Ele até tem aprendido a curtir os dias onde não acontece muito, quando ele pode acordar, caminhar com seus quatro cachorros (“Mojo, Mickey, Rocky e Cleo – eles meio que soam como uma banda”), dar uma volta em sua loja de guitarras recentemente inaugurada em Oakland, chamada Broken Guitars, dar uma passada no estúdio, voltar para casa para jantar “e assistir Game of Thrones como todo mundo”.


Dois anos atrás, ele e sua esposa, Adrienne, celebraram seu 20º aniversário de casamento, renovando seus votos em uma cerimônia em Las Vegas. Mais tarde naquela noite, ele formou uma super banda de improviso com os convidados – Tim Armstrong do Rancid, Jesse Malin, Duff McKagan e Tré Cool – e tocou alguns covers em um clube local. A festa de aniversário de casamento serviu como o próprio casamento que ele e Adrienne nunca tiveram. Em 1994 ele tiveram uma festa de quintal onde cada um levou sua bebida (“alguns amigos trouxeram de litro”, Armstrong lembra). “Eu e Adrienne crescemos juntos, encaramos isso”, diz Armstrong. “Nossos filhos praticamente cresceram com a gente também. O que é muito legal. Sempre fomos mais jovens que a maioria dos outros pais”. (As vezes eles tocam juntos também: certo ano, Armstrong gravou um single com sua esposa e seus filhos e enviou para seus amigos em vez de um cartão de natal).


O home studio de Armstrong foi solicitado por seus filhos, que também embarcaram na carreira musical: Joey como baterista da banda indie SWMRS, Jakob como frontman de sua banda influenciada por Strokes, chamada Jakob Danger, que já lançou um EP no selo Burger Records. “É uma coisa legal de observar no caso do Jakob”, diz Armstrong. “Ele é um cara quieto e um dia ele e Joey estavam tipo, ‘pai, vamos gravar alguma coisa’. Jakob tinha essas músicas e eu fiquei tipo, ‘caralho, de onde foi que saiu isso?’”.


Apesar do status de milionários de meia idade e membros do Hall da Fama, o Green Day, ao menos, mantém as coisas muito no ‘faça você mesmo’. Eles gostam de construir coisas. Dirnt trabalhou para seu próprio empreiteiro na construção de uma casa em Berkeley anos atrás, construindo-a com tamanha habilidade e cuidado que quando ele recentemente passou por lá, os proprietários atuais lhe agradeceram muito. Armstrong recentemente reconstruiu o motor de um velho Ford Falcon, adicionando um adesivo de Joey Ramone em cima do capô como toque final. “Eu me engraxava todos os dias”, ele diz.


Revolution Radio foi igualmente feito à mão. A banda serviu como própria produtora, gravando tudo em quase total privacidade: eram apenas eles e o engenheiro de som Chris Dugan no estúdio todos os dias. Eles não avisaram sua gravadora, Warner Brothers, sobre a existência do álbum até que ele estivesse quase finalizado. “Quando ninguém sabe que você está trabalhando, as vezes esse é o melhor momento pra trabalhar”, diz Dirnt. “Ninguém chega e diz, ‘você já terminou aquela coisa?’ Você finaliza porque quer, não porque precisa disso”.

Armstrong zomba de bandas de rock que procuram por produtores de ponta e convidados pop star. “Nós rejeitamos ter de trabalhar com outras pessoas para conseguir um hit”, ele diz, fazendo uma cara de zoeiro estilo 94. “Nós não precisamos fazer isso. A maioria das outras banda também não, mas eles fazem porque são uns cagões!”.


Eles gravaram o álbum no novo estúdio de Armstrong, Otis, num bairro de classe alta de Oakland. Há a capa de um disco do Chuck Berry na porta da frente, uma jukebox vintage no andar de cima carregada com a formidável coleção de discos de 7” de Armstrong (tem Little Richard ‘Keep on Knockin’, The Who ‘Anyway, Anyhow, Anywhere’ e Buzzcocks ‘Orgasm Addict’) e uma edição antiga do Zap Comix em uma mesa lateral. Uma enorme bandeira da Califórnia fica esticada em uma das paredes da sala, perto de um pôster emoldurado de ‘Rock N Roll Halloween Party’ de Alan Freed. No corredor há um armário da antiga escola de Billie Joe, recuperada por seu irmão, que foi zelador por lá, durante uma remodelagem. Dentro dele tem um adesivo anunciando um show do Green Day em 16 de março de 1990. (“Isso não é uma loucura?”, diz Armstrong apontando).


O real espaço do estúdio, uma sala retangular com piso de madeira e uma corda de luzes no teto, é quase absurdamente pequeno – alguns estúdios profissionais tem cozinhas maiores. A banda finalizou as gravações em julho e o equipamento permanece amontoado lá. Para conseguir um som de bateria ideal para ser reproduzido em arenas, o Green Day colocou microfones no corredor e no pequeno banheiro anexo à sala de gravação. “Capturou o som que você ouviria se estivesse lá dando uma cagada enquanto eu tocava”, destaca Cool. “Presumindo que você tenha deixado a porta aberta e o ventilador desligado. O que não recomendávamos”.


Gravar o álbum foi fácil, mas estar lá foi complicado. Dirnt passou maior parte do tempo de folga enfrentando um dos mais dolorosos desafios de sua vida, após sua esposa, Brittney, ter sido diagnosticada com câncer de mama. Agora ela está em remissão após “nove cirurgias, quimioterapia e toda aquela merda”. Dirnt raspou a cabeça em solidariedade e a família se mudou para o sul por oito meses para focar em seu tratamento. Ter dois filhos com menos de 10 anos tornou tudo ainda mais difícil. “A última coisa que você quer é perder o pai preferido”, diz Dirnt com um pequeno sorriso. “Ela também é a pessoa mais forte entre nós dois. Eu provavelmente teria me encolhido num canto e dito ‘é o meu fim’”. Dirnt tem uma clássica e forte personalidade de baixista – você gostaria de tê-lo ao seu lado durante uma crise.


O tratamento de sua esposa deixou Dirnt com tempo livre suficiente para ele fazer trabalhos sérios em relação a tocar baixo: ele aprendeu ‘Sir Duke’, do Stevie Wonder, nota a nota, então foi mais fundo, se encontrando com um professor de jazz. Quando Armstrong sugeriu pela primeira vez começar um novo álbum, Dirnt disse que precisava de mais tempo. “A única coisa que o câncer te dá, é o presente da perspectiva”, ele fala. “Dito isso, você não pode simplesmente sair daquela bolha e então pular para dentro de um navio pirata. É tipo, ‘não, cara, eu não estou pronto’. Eu queria sentir que tinha um minuto para absorver outra emoção”.


Tré Cool também não estava ansioso para voltar ao trabalho. Ele estava em uma lua de mel estendida com sua nova esposa, Sara Rose, uma musicista de trinta e poucos anos que tinha cabelo roxo no dia do casamento – graças a ela, há um set de bateria na sala de estar deles neste momento. “Nós fizemos uma pequena viagem pela Europa, México, Belize e Jamaica”, ele diz. “Sermos recém-casados e apenas fazer o que quiséssemos a cada dia. Esse era o negócio”.


Cool cresceu em um território hippie na zona rural de Mendocino County e ainda parece empolgado em estar na civilização. Com 43 anos, ele ainda anda de cabelo espetado na cor azul, sem falar em ser chamado de Tré Cool. Ele está se preparando para longo prazo, malhando forte para se preparar para a vida de um “velho de 60 anos tocando músicas do Green Day” – ele chegou a pedir certa vez a Charlie Watts alguns conselhos para longevidade como baterista, embora as sugestões (um drink energético e calórico e pegar mais leve) não foram de muita ajuda.


Para Armstrong, sua ideia de dar um tempo poderia facilmente ser confundida com produtividade frenética. Ele refez o disco ‘Songs Our Daddy Taught Us’, dos Everly Brothers, junto com Norah Jones em um álbum colaborativo chamado Foreverly; escreveu um set de músicas estilo Beatles para o musical inspirado em Shakspeare, chamado These Paper Bullets!, para o teatro de Yale; e tocou guitarra em diversos shows para uma de suas bandas favoritas de todos os tempos, The Replacements.


Armstrong não foi mais o mesmo após sua estreia na Broadway interpretando o decadende deus do rock St. Jimmy, no musical de American Idiot. A experiência poderia ter revelado seu abuso de substâncias naquele tempo (“ele tinha uma atuação metódica”, diz Malin), mas também lhe deixou faminto para tentar coisas novas. Ele começou cautelosamente a procurar por papeis para atuar e, após rejeitar vários scripts, ele aceitou o papel de um ex-músico passando por uma crise de meia idade e pai aflito na dramédia chamada Geezer, fazendo sua estreia em um papel principal aos 44 anos. O filme, hoje chamado Ordinary World, depois de uma balada escrita por Armstrong para ele, será lançado uma semana após Revolution Radio. Armstrong está em quase todas as cenas, entregando uma impressionante performance natural, junto com Fred Armisen e Selma Blair. O escritor e diretor Lee Kirk encorajou Armstrong a pensar no filme como uma linha do tempo alternativa: o cara no filme também lançou seu primeiro disco por uma grande gravadora na mesma época de Armstrong, mas neste caso, não deu certo. “Nós conversamos sobre isso ‘como uma história onde Dookie não vendeu 10 milhões de discos’”, diz Kirk. “Talvez essa seja a vida que ele poderia ter levado”.


O filme deixou Armstrong ansioso para tentar mais coisas: “porra, cara, eu quero tentar atuar mais. Eu quero tentar musicais e quero tentar misturar ambas as coisas. Não há pressão para ser perfeito. Houve vezes que, fazendo Ordinary World, eu não tinha ideia alguma do que estava fazendo. Foi uma das melhores experiências que já tive na vida”.


O tema de crise de meia idade de Ordinary World também aparece em Revolution Radio – através da escrita de Armstrong, é um primo próximo daquele sentimento de deslocação que ele sempre capturou tão bem. “As vezes, quando você está em casa sozinho”, ele diz, “tem aquele sentimento de que você está espiritualmente desempregado, e você está tentando entender quem você é. É sobre ir em frente e pensar, ‘o que é a coisa mais honesta que posso dizer sobre mim agora?’”. O álbum inicia com o hino estilo The Who, ‘Somewhere Now’, que encontra Armstrong se sentindo “espiritualmente quebrado”. “É apenas aquela névoa e tentar sair por cima dela”, ele diz. “É meio que sobre isso que o disco se trata”.


O álbum também aborda o que Armstrong vê como uma América confusa. “O mundo parece uma velha capa de album do Dead Kennedys ele diz. Há mais de uma referencia a brutalidade policial (um problema que ele falava nos anos 90) e o protesto do movimento Black Lives Matter. “Eu acho que o meu papel é me calar e ouvir”, diz ele.


Muitas pessoas brancas deveriam se calar e ouvir. Elas realmente não sabem o que é de verdade a experiência afro-americana. Quando você tem pessoas sendo mortas em seus próprios carros sem motivo e sendo colocadas na porra de uma cela só por lucro, nós temos um sério problema, e a primeira coisa que você precisa fazer é ser educado. Não tente fazer isso como, ‘Blue lives matter.’ Não tente dizer ‘All lives matter.’ Apenas cale-se e ouça a experiência. E então vá em frente depois disso.”

O dia depois do lançamento surpresa de ‘Bang Bang‘, o primeiro single de Revolution Radio, Tré Cool estava dirigindo seu Volvo 1963 por Gilman Street em Berkeley, em direção ao clube onde tudo começou. Onde um dia já foi um depósito abandonado, ele aponta, pra onde estão agora as empresas Trader Joe’s, Whole Foods e alguns condomínios. Quase na metade do caminho, a luz do motor acende, e o carro começa a engasgar. “Estou quebrando”, ele diz, um tanto engraçado. Nós estacionamos, empurramos junto o carro para a esquina, num estacionamento em uma rua mais silenciosa.


Talvez tenha sido um sinal do deus do punk-rock, um castigo atrasado por assinar com uma gravadora maior no passado, nós ignoramos e fomos andando para o clube vazio. 924 Gilman ainda é administrado comunitariamente, da mesma forma que era quando o Green Day começou a tocar lá no final dos anos 80, antes de Cool juntar-se a banda. É uma pequena construção de tijolos que poderia facilmente passar despercebido – mas o Sun Studios em Memphis também é assim. “Não parece muito”, diz Cool afetuosamente. A janela está coberta de flyers de novas bandas que tocaram lá recentemente, com Jakob Danger em destaque entre eles. (“É como um filme”, Armstrong diz mais tarde)


Cool e seus colegas de banda abraçaram o fato de que o Dookie agora é mais velho do que o The Dark Side of the Moon era em 94. “Eu me lembro de piadas quando o Dookie e o Insomniac eram novos”, diz Cool, “nós iríamos tocar nas estações de rock clássico ao lado de Led Zeppelin e da porra toda. Tipo, isso não seria engraçado? Agora eu literalmente ouço nossa música junto do Led Zeppelin nas rádios de rock.”


Com seus power-acordes simples e grudentos, o Green Day tem inspirado mais bandas jovens a começar do que qualquer ato desde o Kiss, e isso não parece estar mudando. Quando Armstrong viu Jakob tocar recentemente, ele conectou-se com um trio adolescente de garage chamado Destroy Boys, que, assim como o Green Day, lançaram seu LP de estréia enquanto ainda estavam no colegial. Um dia enquanto estávamos na loja de Armstrong, a Broken Guitars , a banda bateu na porta: “Ei, nós somos a Destroy Boys!” Eles entregaram uma camisa da banda, e rapidamente postaram uma foto em seu Instagram.


O Green Day nunca parou de fazer jovens fãs, muito diferente de bandas veteranas, eles ainda veem muitos rostos novos em seus shows. Mas no ultimo ano, um mês depois de sua indução ao Hall of Fame, a banda retornou ao 924 Gilman para um show secreto para o público mais velho que eles já viram: era uma reunião de classe para sua cena do início dos anos 90, um clube cheio de punks crescidos. “Aquilo foi tão emocionante”, diz Armstrong. “Olhando pro publico você vê rostos familiares que um dia já tiveram piercings e cabelos coloridos de roxo e agora estão cobertos de cinza.” Alguns desses jovens punks são agora “educadores, eles são artistas, são autores”, que costumavam utilizar, assim como Armstrong, o punk como uma porta “para dentro da ideia de ser capaz de se expressar.”


“É como correr para um velho amigo”, ele diz, “e você está tocando a um palmo de todas as coisas que acontecem em uma vida de 40 anos – você pensa em tudo que tem mudado em sua própria vida. É uma viagem. Porra! Mas estamos aqui”, Armstrong suspira. “Se esse tivesse sido o ultimo show de uma tour que eu tivesse tocado pro resto da minha vida, eu morreria feliz”,


Por dentro da revolução do Green Day

Revolution Radio é seu primeiro LP em 15 anos sem uma “torção” extra – sem grande conceito, sem álbum triplo, – mas cheio de grandes emoções e política quente. Billie Joe Armstrong decifra algumas músicas chaves:


Revolution Radio

“Give me cherry bombs and gasoline!” canta Armstrong nesse hino cheio de carga pesada. Ele diz que teve a ideia em Nova York há 2 anos quando passava por um protesto do movimento Black Lives Matter ; antes ele conhecia, Armstrong tinha saído de seu carro e estava andando pela 8ª Avenida com a multidão. “Eu estava gritando, ‘Mãos pra cima, não atire’” ele diz. “Eu me senti estando do lado certo da história.”


Bang Bang

A mais rápida e mais agressiva música no álbum é também o primeiro single. Armstrong canta da perspectiva de um atirador psicótico (“I am a semiautomatic lonely boy/You’re dead/I’m well fed”). “A coisa assustadora foi quando eu entrei na mente do personagem”, diz Armstrong. “Comecei a ficar atordoado”.


Still Breathing

Um drogado a beira da morte, um jogador prestes a perder tudo e um soldado ferido na linha de frente são os os personagens nessa imperfeita mas – correto canto a sobrevivência. “As vezes eu fujo por estar tão pesado”, diz Armstrong. “Mas as vezes apenas sai dessa forma”.


Troubled Times

Um rockeiro sinistro que avalia uma América a beira de um desastre, cheia de inquietação racial e desigualdade econômica. “Eu queria dizer que ‘vivemos tempos difíceis’ era um clichê, mas não é”, diz Armstrong. “Trump está pregando o medo nas pessoas, raiva e desespero”.


Say Goodbye

Armstrong reagiu a imagens de veículos estilo militar blindados nas ruas de Ferguson, Missouri,quando escreveu essa música: “Eu estava tipo, ‘Em que país eu vivo? Como isso é diferente da Primavera Árabe (É o nome dado à onda de protestos, revoltas e revoluções populares contra governos do mundo árabe que eclodiu em 2011.)?’”


Outlaws

Uma canção que olha de volta aos dias de adolescentes punks do trio. “Eu estava nostálgico”, diz Armstrong. “Eu e Mike invadíamos carros e roubávamos fitas e isqueiros”.


Youngblood

Essa romântica canção de meio tempo (nem lenta, nem agitada) é dedicada a esposa de Armstrong, Adrienne, com a qual tem um casamento de 22 anos. “É tão fácil de escrever sobre ela, porque ela é tão incrível”, diz Armstrong. “Ela é o cedro das árvores em Minnesota”.